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Chico Ferreiro e seu filho Hilário: a história da ferraria dos Barbieri

Uma profissão que hoje pode ser vista como hobby, mas que na época era essencial para a vida das pessoas. Hoje, vamos contar a história da ferraria dos Barbieri, mais especialmente de seu Chico Ferreiro e do seu filho Hilário, contada pelos olhos dos seus respectivos filhos: Antônio e Lúcio.

Seu Chico Ferreiro e Hilário: pai e filho na ferraria

No Barracão poucos o conheciam como Francisco Barbieri. Agora, se perguntar pelo Chico Ferreiro todos vão saber quem foi. Ele morreu há mais de 20 anos, mas será sempre lembrado como o profissional da única ferraria do bairro.

A profissão, que acabou incorporada ao seu nome, é “hereditária”, passa de pai para filho, e foi o que aconteceu com o filho do seu Chico Ferreiro, Hilário Barbieri, porém, parou por aí.

As gerações seguintes não conseguiram dar continuidade a uma das mais antigas profissões da humanidade (2.000 AC). Mesmo assim, Antônio, filho de Hilário, e Lúcio, neto de Chico, tem boas recordações daquele tempo e preservam as histórias dos antepassados vivas na memória.

A história da profissão

Até meados do século passado, o ferreiro era um profissional muito requisitado, um misto de artesão e artífice metalúrgico. Em sua barulhenta ferraria, ele “fabricava manualmente”, além das ferraduras, os machados, foices, martelos, picaretas, enxadas, escavadeiras, ancinhos, enxadões, facas, facões, dobradiças, ferrolhos, correntes para tração animal, correntões para usinas e para os tratores; grelhas de arados, rodas de arados, aro das rodas de carros de boi, cambões, garruchões para conduzir gado, e mais uma infinidade de itens, como tesourões de cortar grama, fornos à lenha e espetos para churrasco. Tudo feito com o fole, fogo, martelo e a bigorna.

Em Gaspar, as estradas eram verdadeiras “picadas” e o único meio de transporte das mercadorias, que eram produzidas nas propriedades rurais, era o chamado carroção. Era necessário ter carroças resistentes animais fortes. Aí começa o mais importante trabalho do “Chico Ferreiro” e de Hilário.

O começo do seu Chico Ferreiro

Eu lembro das carroças que chegavam na oficina. A maioria eram carroças que precisavam de algum tipo de reparo, como mexer na peça que ficava entre o eixo e a roda, nas partes de metal que suportavam o peso da carroça, entre outras coisas.

Antônio Barbieri, filho do seu Chico Ferreiro.

O meu pai adorava o que fazia. Chegou a ter dias em que ele ficava finais de semana trabalhando na forja. Gostava muito mesmo.

Lúcio Barbieri, filho de seu Hilário.

Eles contam que Chico Ferreiro começou a trabalhar na profissão antes da Segunda Guerra Mundial em uma oficina que ficava num terreno “de favores”. Mais tarde, ele comprou terras próximo ao Bateias, local onde vivem hoje filhos, netos e bisnetos dos ex-ferreiros.

Quando eu nasci, lá pela metade dos anos 1950, a família toda veio para cá. Queriam um terreno próprio. Ele conversou com outros membros da família Barbieri, e eles deram parte do terreno pro meu pai. Foi assim que ele ficou conhecido por aqui.

Lúcio Barbieri, filho de seu Hilário.

Pai e filho começam a trabalhar juntos

Seu Chico Ferreiro teve grande ajuda do filho, Hilário Barbieri, logo depois que ele serviu ao Exército Brasileiro, onde aprendeu e teve práticas com a profissão no trato com a cavalaria.

Meu irmão mais velho já fuçava na ferraria desde novo. Depois que pegou prática então, ficou ajudando o meu pai com isso.

Antônio Barbieri, filho de seu Chico Ferreiro.

Os dois então começaram a trabalhar juntos. Afinal, manusear um metal derretido e quente, e moldar para que se encaixe perfeitamente na carroça ou em outras ferramentas requer muita experiência e habilidade.

Tanto que, apesar de importante o trabalho de ferreiro, Antônio e Lúcio se lembram de apenas mais duas ferrarias em Gaspar. Uma ficava no Centro da cidade, e outra próxima aos limites com Brusque. A ferraria de seu Chico se localizava num ponto estratégico, entre os bairros Barracão, Bateias e Óleo Grande.

Todo mundo tinha uma carroça na época. O serviço do meu pai era muito requisitado.

Antônio Barbieri, filho de seu Chico Ferreiro

Lúcio ainda conserva uma bigorna, de cerca de 80 kg, que era usada como base para que a peça de metal fosse “forjada”. Seu Chico Ferreiro e Hilário desprendiam muita energia para lapidar as peças.

“Meu pai usava muito o “olhometro” pra acertar o raio de metal que ia na carroça e sempre acertava por conta da experiência.

Não era fácil o trabalho de Chico Ferreiro

Havia, porém, momentos de dificuldade, como por exemplo a colocação das ferraduras no cavalo.

Meu pai quebrou algumas costelas por causa do coice enquanto pregava a ferradura no casco do animal [sem encostar na carne, ou seja, sem sofrimento]. Era bem comum esse tipo de acidente de trabalho.

Lúcio Barbieri, filho de Hilário.

Perto de completar 50 anos idade, seu Chico decidiu passar a ferraria para o filho. Hilário trabalhou como ferreiro enquanto deu, porém, aos poucos o serviço foi ficando escasso e o preço do ferro subiu bastante. No final, a ferraria acabou virando hobby.

Hilário aproveitou a popularização do automóvel e montou uma oficina mecânica nos anos 1970. Ele faleceu em 1997. Desde então, a memória dos dois ferreiros está viva na família Barbieri e nos moradores mais antigos.

“É sempre bom relembrar e preservar essas histórias. A gente sente saudades deste tempo que foi muito bom”, finaliza Antônio, com uma ponta de saudosismo.

 A arte de moldar o ferro

O metal é aquecido até que fique vermelho ou laranja. A forja é o lugar onde trabalha o Ferreiro. Sobre uma pequena construção de pedra fica a fornalha. De um lado vai uma pedra vertical, com um buraco no fundo, onde entra e apoia o bico do fole.

Este, de grandes proporções, é de couro nos lados e, em cima, debaixo e no meio, de madeira, funcionando através de uma alavanca. O ferreiro molda as suas peças aquecidas a nível extremo a partir da força física, bem como da sua capacidade artística, pelo que martela cada peça em cima da bigorna, até adquirir a forma desejada.

Nas ferrarias antigas não podiam faltar instrumentos como o cavalete ou safra; o calçador, a talhadeira e o ponteiro encaixados em “vergueiros” de carvalho, rachados numa ponta e apertados por argolas ou arames, para calçar, cortar ou furar sobre a safra.

*Com informações do seu Jornal Metas.

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